quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Receita

Viemos do mesmo pó
Somos da mesma água
Eu tua metade quente
Tu minha metade fria
Numa tijela vazia
Receita simples, mas fina 
Meu calor, tua frieza
Nosso amor de gelatina

terça-feira, 18 de agosto de 2015

por um fio

- Espera, deixa eu ver se eu entendi, você tá me pedindo pra ir embora porque tá com medo que eu te deixe, é isso?
- Isso!
- Percebe o quanto isso não faz o menor sentido?
- Nós dois nunca fizemos sentido. Mas, sabe os segundos de tremenda agonia que a gente vive quando criança, e um dente amolece, aí amarram nele um fio dental pra arrancar? Parece que eu tô vendo você olhar pra mim, segurando aquele fiozinho, pronto pra puxar a qualquer momento...
- Eu não acredito que você tá fazendo uma comparação dessas, num momento como esse. Eu não acredito que você acha que a dor da nossa separação vai ser equivalente a dor de arrancar um dente de leite. Vou fingir que nem ouvi...
- Não é isso! Eu tô falando da angustia que antecede o fim. Às vezes, é maior e mais dolorosa do que o próprio fim. Eu prefiro te arrancar de uma vez da minha vida a viver com medo. Viu como a gente não se entende? Além do mais, eu não gosto de quem eu sou quando estou com você.
- Então não seja! Apenas não seja!
- Não dá! Você desperta o pior que existe em mim. Você não entende?
- Não, eu não entendo. Não entendo você querer me culpar por suas próprias atitudes. Você me culpa por tudo, tudo!
- Bingo! É exatamente isso! Eu não quero ser uma pessoa que responsabiliza outra pelas minhas próprias atitudes. Não quero mais ser alguém que faz você se sentir tão culpado. Ou alguém que vasculha seu telefone enquanto você toma banho. Seus bolsos, sua carteira... Não quero mais viver duvidando. Sabe, às vezes, eu paro e fico me perguntando: qual será a sensação de ouvir 'hoje vou ter que trabalhar até mais tarde' e simplesmente acreditar? Simplesmente relaxar e responder 'tudo bem, amor', sem imaginar você comendo de todas as formas possíveis "a moça que faz você se lembrar o que é ser leve"?
- Mas... Eu não... Não acredito que você realmente mexeu no meu celu...
- Amor, você ainda me ama? 
- Sim, mas...
- Então prova!
- Como?
- Puxa esse fio de uma vez!
- Eu... (...) Vou arrumar minhas coisas...

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Vá com Deus

Eu não queria sair assim, expulso da tua vida. Por entre palavras confusas e sem direção. Teus maldizeres ecoando em minha mente, dia após dia. Mesmo sabendo que há tanto bem querer no teu maldizer. Que teu ódio é só o amor que te obriguei a virar do avesso. Eu já vi e revi esse filme, tantas e tantas vezes. Desculpa. Eu te avisei que não era confiável. Que sou só um louco colecionador de desafetos. Você... É outra louca colecionadora de decepções. Não me culpe por ser o diabo que você quis abraçar. Agora, vá com Deus. Fica com a tua loucura e me deixa aqui com a minha.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Click

A vida poderia ter um controle remoto. Eu nem ia usar todos os botões. Talvez o "pause" de vez em quando. Eu usaria ele agora. Eu queria uma pausa. Uma pausa no mundo todo, porque eu não queria ficar pra trás enquanto tudo segue em frente. Eu queria que ele parasse pra mim. Aham, bem assim, egoísta. Às vezes, eu tenho vontade de ser nada, só pra não ter que lidar com tudo. Outras vezes eu tenho vontade de ser tanta coisa que dá até preguiça. Eu tenho tido tanta preguiça... Tanta preguiça de viver e de seguir em frente.  Preguiça de ser paciente. Preguiça de lidar com gente. De lidar comigo. Se bem que eu acho que a vida tem um controle remoto. Onde é que aperta pra sumir?

terça-feira, 14 de abril de 2015

Sinto muito


Estou aqui pensando em tudo pelo que quero me desculpar. Toda a dor que causamos um ao outro. Tudo o que coloquei em cima de você. Tudo o que eu precisava que você fosse, ou dissesse. Sinto muito por isso. 
Vou te amar para sempre, porque crescemos juntos. E você me ajudou a ser quem eu sou. Eu só queria que você soubesse que sempre haverá uma parte de você em mim. E sou grato por isso. Seja lá quem você se tornou, onde quer que você esteja no mundo, estou te mandando amor.
Ela, de Spike Jonze.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Fast and Furious

Amores relâmpagos me iluminam a alma.

Sobre apego, acomodação e adaptação


Era uma vez um sapato lindo, raro, caro e apaixonante, desses que combinam com quase tudo. Como ele combinava comigo! Mas ele me fazia calo. Muito calo! Mesmo não querendo sair com ele, porque eu sabia o quanto ia me machucar, eu não queria me desfazer. Queria deixá-lo ali, guardadinho. Meu. Intocável. Ninguém mexe. Ninguém pega. Ninguém vai ter. Só eu!

O que eu poderia pensar? Que ele iria, como num passe de mágicas, se moldar a mim, até caber direitinho? Ou que meu pé, quem sabe, fosse mudar de forma e tamanho? Não. Eu sabia que não. Mas eu queria saber que ele estava lá. 

Fiquei pensando que a gente tem dessas, de se apegar a tudo. Até ao que não nos cabe. Mesmo que nos machuque. De se acostumar até com o que nos faz mal.

Existe uma grande diferença entre adaptação e acomodação. A primeira te torna capaz de manter o controle diante de uma situação aparentemente, ou momentaneamente incontrolável. Diante de uma grande mudança, você cria alternativas, onde elas parecem não existir, de manter o próprio bem estar. 

A segunda te paralisa. Você aceita a condição e vive preso nela a vida inteira. Acha um cantinho para se aninhar e ali permanece encolhido. Não cresce. Não aparece. Não vai para frente. Definitivamente, não quero ser desse time. Quero ser do time dos que vão e, principalmente, dos que deixam ir...

P.s. Quer saber o que eu fiz com o sapato? Essa história nunca teve a ver com sapatos.

sábado, 10 de agosto de 2013

Sonho maluco



Eu tive um sonho que começava com o sol se pondo na beira do rio Acre. Era um sonho louco, com cheiro de pitanga, com beijos na chuva, risadas no bar, na rua, na cama.  Eu chupava um sorvete estranho, com gosto de gelo e mais nada. Eu também dançava. Dançava que cansava. Não lembro muito bem, mas havia uma barraca. É, havia uma barraca. Parece que eu acampava, mas minha barraca era armada dentro de uma cozinha. Juro! E eu ria e chorava. Disso me lembro bem. Se eu me recordo direito, eu fazia mágica para alguém. Eu era mágica no sonho. E era feliz também. Ah, eu andava pelada no mato. Ou eu tava de biquíni? Eu sei que tinha uma rede. Sim, eu deitava numa rede e ficava lá a tarde inteira. Depois eu comia pizza. Nada a ver, né? Mas eu comia muita pizza. Aliás, eu comia muita coisa nesse sonho. A última coisa que eu comia era um camarão delicioso. Só podia ser sonho mesmo. Que sonho maluco! Terminava na beira do rio Acre. O sol se punha no começo e também no fim. Lá, no mesmo lugar, eu me dei conta de que nada era real. Aí eu acordei.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Doses paliativas de verdade

Deixe de choro. Deixe de manha. Este não é o primeiro e nem será o último amor a ser enterrado vivo. Jogue terra, depois caminhe. Por sarcasmo divino nascemos humanos para aprendermos a ter sangue de barata. Sinta... Sinta o suficiente para perceber o quanto é importante ser racional. Um copo de verdade por dia te cura dos clichês e contos de fadas. O príncipe aqui é também vagabundo. A princesa aí não é a única bela entre as feras. Ame o amor, mas ame mais a liberdade. E aprenda a voar como eu.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Do tempo




Há uma fissura humana por ele. Pelo mistério do tempo das coisas. Pela complexidade das coisas do tempo. Ao que não se controla ou se doma. Ao que não para ainda que finde. Ao que dita o início e o fim peço três dádivas divinas: paciência, paciência e paciência.

Peço-te o prazer legítimo 
E o movimento preciso 
Tempo tempo tempo tempo 
Quando o tempo for propício 

Caetano Veloso

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Alice no país das ironias


Me mandaram lembrar de esquecer o script. Mandaram esquecer de lembrar o roteiro.  E, num instante, a principal regra era dormir no ponto e acordar para a vírgula. Então continuei. Caminhei e foi possível ver sorrisos num bosque escuro. Lá, um passarinho me contou que amava a liberdade, e se prendeu a mim por livre e espontânea vontade. Me disse que ninguém segura o tempo quando passa e muda a direção do vento. Não há velas atadas que salvaguardem o destino certo. É curto o espaço entre o nunca e o agora. Entre o sempre e o fim e entre planos e promessas existe o acaso, o desvio, a surpresa. E aí, vejam só, nasceram pitangas em pleno inverno. Pitangas que crescem no meio da chuva. Encharcadas. Submersas... Agora a vida é isso: ouvir gargalhadas no silêncio.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Já sinto o mar me chamar...

 
 

O vejo acenar em cada tom de azul a pintar o mundo. Já o ouço chamar no barulho das águas que me beijam os pés e me inundam a alma. Sinto em forma de brisa leve, ondas baixas e breves que me arrastam em sonhos. Eu já sinto o gosto do mar que escorre de mim pelos olhos e se encaminha até a boca. Já sinto o mar me chamar pra dizer que é meu, uma parte. Que sou dele uma gota. Sou dele e do mundo.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Férias de nós

Nada nesse mundo me dá tanto trabalho quanto controlar borboletas destrambelhadas no estômago. Especialmente as nascidas por tua causa, com esse quê de mutantes, sanguessugas, chupa-cabras. Desse modo, só por isso, pelo cansaço de ter de andar na contramão para te acompanhar, correndo riscos demasiados, resolvi tirar férias tranquilas de nós. Devo confessar que também é árduo o trabalho de me conter para não te fazer provar do próprio destempero. Para não me igualar a ti, como se eu pudesse tirar férias de mim, resolvi tirar férias de nós. Mas, tão fatalmente obvio, aonde eu vou, estou. Aonde eu vou, estamos. E, em se tratando de saudade, quando os olhos não veem é que o coração sente. Agora preciso te dizer que não há borboleta no estômago, mutante ou sanguessuga, que resista a azia causada por tua constante acidez. Eu sei, parece mais acertado chutar o balde antes que ele fique cheio demais. Passamos da conta, tudo bem. Quando você passou a dizer "Madalena, quando o stresse é maior que o prazer, não vale a pena" eu percebi que sempre fomos, um para o outro, como aquele sapato lindo que no pé nunca coube, e mesmo fazendo tanto calo a gente resiste em desapegar. Então decidi, pra desanuviar as ideias, que pelo trabalho exacerbado de se manter vivo o que nunca nasceu, precisamos de férias eternas. Férias das brigas. Das reconciliações. Do que somos. Das lamentações pelo que não somos. Das borboletas mutantes. De nós.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

"Primo, sabe da última?"

"Quem pode mais do que Deus?", dizia o vô Said debochando da minha juba, quando me via acordar pela manhã. "Vem aqui, ô, Maria Betânia, vamos tomar café". Eu odiava. Chorava, esperneava... Afinal, eu era uma criança sofrendo bullying pelo avô. E hoje me vejo aqui, com o cabelo estirado da progressiva e sem o meu chato predileto. Sempre achei a expressão "aniversário de morte" escrota. Mas faz um ano que ele se foi. Apesar de sentir que entre nós faltou convivência, sei que me sobram lembranças dignas de nota, porque ele era daquele tipo de gente que não passa despercebido. "Primo, sabe da última?", e danava a contar a piada nova. Eu lembro da última, na mesa do almoço, comendo um cozidão... Sinceramente, não vi a menor graça no enredo, mas o piadista era bom. Eu lembro muito bem dele espremendo o limão e rindo sozinho, repetindo o final. "Manja, Alzira", e ria, ria... Às vezes eu acordo e me vem o velho bordão na cabeça. Agora, sem choros de raiva, só de saudade, posso responder: quem pode mais do que Deus? Ninguém, vô. Ele decidiu, há um ano, que estava na hora de findar com as piadas. Decidiu que era chegada a hora do teu descanso. Mas tem um pedacinho de ti em cada filho e neto presepeiro e feladaputa (aquele velho apelido carinhoso) que você deixou, visse? 

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Confissão

No reino das verdadeiras mentiras
Onde o amor é contrato
Compromisso firmado em altar
Simbólicos círculos de ouro algemam os dedos
Enquanto correntes de latão enferrujam na alma
Um velho papel pra assinar

Mãe, eu não quero me casar.

terça-feira, 15 de maio de 2012

afinidade

Foi assim, observando em mim cada coisinha que ele supostamente reprovava, e a ausência de um monte de outras coisinhas que ele tanto amava, que descobri que a afinidade vai muito além de ser ou parecer a pessoa ideal de alguém. Isso porque a pessoa ideal, no sentido de idealizada mesmo, nunca chega perto de nós, pessoas reais, que estamos juntas nos momentos reais, dividindo coisas e até sonhos reais. Tá, para serem consideradas afins, as pessoas precisam ter um ponto em comum. Que tal a vontade de estarem juntas?



*Inspirado em um post da Deyse, essa linda.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Ressaca amoral


Já no elevador, eu tive um pequeno lapso de consciência. Uma prévia da culpa que certamente estaria comigo ao amanhecer, chegando matreira e se instalando aos poucos. A imagem no espelho, que ia do chão ao teto, me encarava. Descabelada, maquiagem borrada, roupa amarrotada, ela me perguntava o que eu fazia ali de novo, e o que eu esperava daquilo tudo. É, Madalena, você não tem vergonha nessa cara amassada de bolacha, ela dizia. Desviei o pensamento.

Aliás, a música que tocava o desviou. Porra de sertanejo universitário. Nem os elevadores estão a salvo. No taxi, na volta pra casa, tocava exatamente a mesma. Ou não. Pra mim é tudo igual. Na verdade, eu queria pensar em qualquer coisa, ainda que fosse na descoberta da causa e da cura pra aquela virose musical que tomava conta do país e, por culpa do fresco do Michel Teló, do resto do mundo. Eu só não queria pensar no que tinha acabado de fazer.

Em casa, joguei a bolsa num canto e me sentei no chão frio. Quis me livrar das roupas, dos enfeites coloridos e me despir da falsa alegria que eu vestia pra convencer a mim, a ele e ao resto mundo de que tava tudo muito bem. Tudo muito lindo. Que a gente podia continuar nessa. Ai, ai... Sou tão bem resolvida. Tô numa boa, cara. Nem ligo se sou a uma ou a outra. Nem ligo se eu sou a de sábado a noite ou a de segunda na hora do almoço. Nem ligo se esse canalha me esquece no instante em que eu bato a porta. Nem ligo... Nem ligo... Uma ova.

Pus minha cara de pau embaixo do chuveiro. Fechei os olhos e imaginei a água me lavando a alma. Queria me livrar do nosso cheiro. Daquelas marcas. Mas eu queria mais ainda me livrar daquela máscara de rudeza. Eu queria era deixar de repetir pra mim mesmo esse discurso de gente autentica, desprendida e babaca que eu criei. Eu queria o silêncio. Mas o silêncio nunca é pleno. No meu quarto, o relógio me emputecia num tic-tac ensurdecedor. A vizinha, pra variar, ouvia a porcaria do sertanejo universitário.

Risadas ao fundo. Bomba d'água. Ratos no forro. Desisti. Caí no sono e acordei com a maldita da ressaca. Era assim todas as vezes. Dor de cabeça, boca seca, culpa católica e as velhas promessas de sempre. As velhas promessas de nunca. Nunca mais vai acontecer. Nunca mais eu vou te ver. Nunca mais eu me embriago de você. Nunca mais... Até me render facilmente à próxima crise de abstinência. A próxima mensagem sacana no meio da noite. Com o perdão da expressão, mas, puta que pariu, ressaca amoral é um porre.

domingo, 29 de abril de 2012

Amor parasita


Amigos só querem ajudar. Quando eles dizem pra você esquecer, eles só querem ajudar. E quando eles dizem que não vale a pena alimentar aquele amor bandido, eles também querem ajudar. Não alimente o amor que não vale a pena, eles dizem. Para de falar nisso, vira a página, troca o disco, dá F5, muda de assunto, esquece, segue em frente, reprime, ignora, supera, eles repetem. E você os ouve. E alimenta somente a raiva. Alimenta de lembranças ruins, na esperança de que o amor morra de fome. E o que ele faz? Ele te come. Te come inteiro. Come com raiva e tudo. Te come o estomago e você perde a fome. Te come as lembranças ruins e você só lembra do que foi bom. Te come os olhos e você não vê um palmo a frente do nariz. Ah, ele também te come o nariz. E uns pedacinhos do pulmão. Fica tão difícil respirar... Te come o cérebro, o bom senso, o orgulho, o ânimo, o sorriso... E ele engorda. É sim. Ele engorda. Enquanto você emagrece. O amor se alimenta de ti e sobrevive feito um parasita. Ele só não come saudade e dor. Essas aí ficam intactas, feito brócolis no canto do prato das criancinhas. Mas os amigos só querem ajudar.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Do fim ao começo


Era uma vez... Assim como eram todas as vezes. Madrugada, você deitada na cama encarando o relógio no criado mudo. Eu chutava a porta, depois de tentar, sem sucesso, meter a chave no buraco da fechadura. “Calma, cacete. Já vou abrir”, lá vinha você, bodejando sei lá mais o quê, que de tão bêbado nunca lembrei.

Todas as vezes que eu me via preferir a mesa de bar a tua companhia, lembrava de quando largara meu mundo pelas tuas vontades. Tu querias sair do sítio. E lá fomos nós, jurando amor eterno, prometendo estudar, trabalhar, ter filhos, casar. Não necessariamente nessa ordem.

Nossos planos de amores feitos ao lado dos pés de amora, em cima dos jambeiros e ingazeiros, aos poucos se desfaziam no segundo andar do nosso prédio, onde as paredes me sufocavam. A rotina também. A cidade te tirou aquele ar de menina do campo, Soraia. Flores no cabelo, cara limpa, vestimentas singelas... Teus cachos, que eu tanto amava, você esticou. Tuas unhas agora combinavam com a boca vermelha. Até teu cheiro deixou de ser teu (e meu). 

Depois de meses de bebedeira continua pra fugir de nós, você já tinha aprendido. Com gente bêbada não se discute. E me deixava soltar os cachorros, despejar as cobras, os lagartos, enquanto você engolia os sapos, rãs e cururus. Engolia com maestria. Até um dia vomita-los todos na minha cara, enquanto dizia que engolir era fácil, difícil era digerir. E me mandou ir embora, sem saber que eu já planejava ir. Mas essa parte só veio agora porque eu comecei pelo final.

Até porque, diz o clichê, no começo tudo são flores. E nós éramos orquídeas crescendo sobre as árvores, em busca de sol. E brincávamos de esconde-esconde, corríamos pelo sítio, pulávamos pelados no açude, ríamos das piabas taradas mordiscando nossas coisas. Coisas estas, que descobrimos juntos.

A cerca que separava nossas terras tinha uma pequena falha. A falha mais certa de nossas vidas. Os dois faltosos pedaços de madeira que me permitiram adentrar teus lados em busca de uma pipa qualquer. Enquanto você, arengueira, ameaçava não devolver. “Eu que aparei, ela é minha”, gritava. E eu te mandei ir atrás das tuas bonecas, costurar roupinhas e me deixar em paz, com minhas coisas de menino.

Você dava de ombros. Dava língua. Mostrava o dedo do meio. Tinhosa, como sempre foi, batia o pé no chão e dizia não. E eu te odiei. Odiei por ter me feito, a partir dali, esquecer a pipa e as demais coisas de menino. Mas antes, corri atrás de ti, até cairmos no chão, nos atracando numa briga digna de filhotes de cães. A pipa já não tinha mais papel de seda, teus cachos enfeitados com folhas secas e você, ofegante, pedia trégua.

Deitamos lado a lado no chão. Tomamos minutos de fôlego em silêncio, até você quebra-lo com um riso baixo, que foi aumentando e aumentando devagar até se transformar na melhor das gargalhadas já registradas por minha memória auditiva. “Ta rindo de quê, em, menina velha?”. “To rindo da tua pipa, que ta só o bagaço. Nem tu nem eu vamos poder brincar”.

Eu lembro, Soraia. Eu lembro que foi assim. Lembro até do teu primeiro abraço demorado, quando terminei de consertar a escada da tua casa na árvore. Três degraus soltos, doze pregos, um martelo, um erro a cada cinco marteladas e um beijo no meu rosto a cada dedo machucado, pra aliviar a dor. Lembro que foi ali, naquela casa, que descobri teu corpo, o cheiro da tua nuca, teus beijos, tuas primeiras taras.

Foi assim.  Te escrevo em resposta aquela carta sem cabimento pra te dizer que não. É claro que eu não esqueci. Te contei de rabo a cabo, de trás pra frente como nossa história se deu porque, ao relembrar, eu sempre preferi terminar pelo início e começar pelo fim.

Beijos.

Jairo