Nascem vermelho-paixão, depois as coisas vão ficando pretas...segunda-feira, 12 de março de 2012
É da natureza:
Nascem vermelho-paixão, depois as coisas vão ficando pretas...terça-feira, 6 de março de 2012
Gramática dramática
Enquanto ela soltava o verbo, eu fazia uma oração. Oração subordinada a ser substantiva, objetiva e direta de meu principal desejo: “que ela me perdoe, que ela me perdoe, que ela me perdoe”... Ela conjugava em alto e bom som o “ir” do amor que em nós um dia se fez tão presente, e a cada pronome se mostrava cada vez mais pretérito apesar de perfeito. “Eu fui pra ti um objeto, enquanto tu... Tu foste meu amor. Ela foi só mais um, entre tantos motivos. Nós fomos o que nunca mais seremos. Vós fostes o culpado... Eles e elas foram testemunhas”. Depois passou a me atirar objetos. Objetos, direto no rosto. Objetos, direto de suas mãos suadas e trêmulas... Foi assim, quando amar tornou-se verbo transitivo
Ponto final.
quarta-feira, 26 de outubro de 2011
A cantora
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
#Diário de Madalena
Lembro-me que na quarta ou quinta vez, não sei ao certo, prometi que não mais aconteceria. E cá estamos nós, na nonagésima quarta? Parei de contar na vigésima. Pensei nos motivos que me faziam recuar e eles não me eram suficientes. Além disso, eu não seria Madalena se cumprisse minha promessa.
Pra ele, era como se a culpa o vigiasse, mas o retrato dela no criado mudo nunca me incomodou. Cada vez fico melhor em ser o que escolhi ser. Sim, porque não culpo o destino, nem o capeta, nem o fogo da paixão que, dizem, faz você sair de si e cair em tentação. Não conheço de tentação. Conheço de escolhas.
Escolhi vê-lo chegar, pra logo depois sair. Escolhi nunca ter dia certo pra o encontrar, mas saber a hora exata de desaparecer. Escolhi não poder ligar a qualquer hora. Escolhi não cobrar, não possuir.
Cuidar pra não deixar rastros, marcas de unhas, manchas de batom. Não usar com ele o perfume de bom fixador, que ela provavelmente chamaria de “barato”. Essas são formas sutis de dizer “Eu te amo”. Ou, pra ser mais clara, mais Madalena, são formas de dizer: “Quero continuar f*dendo com você, sem f*der a sua vida”. E eu acho que ele entende (e agradece).
segunda-feira, 6 de junho de 2011
No canto
No canto das canções que canto
Ou no canto dos contos que invento
Sempre achei que houvesse encanto em cantar o que nunca conto
Pra não descontar no outro o que só é da minha conta
Junto mágoa, saudade, lembrança
medo, desejo, esperança
No canto das canções que canto
No canto dos contos que invento
quinta-feira, 12 de maio de 2011
Dilema
- E se eu jogasse uma moeda pro ar?
O vento, manso e fresco, parecia querer opinar. Ele soprava a favor de Jerônimo, assoviando em meus ouvidos algo que me fez lembrar aquela velha canção que tanto embalou meus antigos sonhos proibidos. Antigos, porque mais tarde, Jerônimo e eu fizemos questão de realizá-los todos, quase que de uma só vez.
Mas eram sonhos demais pra uma noite só! Ao pensar nisso, era impossível não me escapar um sorriso pingado de malícia, do canto da boca.
Já os passarinhos... Estes eram do time de Heitor. Primeiro porque ele também era cantador, dos que acham tudo sempre lindo, mesmo em dias de muito chover e muito trovejar. Eles estavam eufóricos, cantando ao redor, como quem dizia: "É ele, Helena! É ele! Não o deixe escapar."
Lembrar de Heitor também me fazia sorrir. Mas era um sorriso diferente, desses que te deixam com cara de bobo, mas que, ainda assim, te iluminam o rosto.
E eu sorria bobamente por alguns segundos, lembrando de Heitor, induzida por sabiás e canários, até vir o vento me assoviando cânticos proibidos, acendendo pensamentos libidinosos e arrepios de desejo.
Pus então as mãos nos ouvidos, a fim de tapá-los, e não mais ouvir a natureza, já que ela não parecia querer ajudar. Levantei subitamente, fui até a praça calçada e tirei a moeda do bolso.
- Cara, Jerônimo; Coroa, Heitor.
Fechei os olhos e joguei-a desastradamente para o ar. Alto demais, longe demais e, ainda assim, esperei ouvir algum som que indicasse que ela havia tocado o chão, mas nada. Abri lentamente os olhos, voltados para baixo. Eu ansiava e ao mesmo tempo sentia receio pela resposta.
Pensei ter perdido a moeda valiosa, incumbida de tamanha missão, quando me dei conta de que logo ali à frente, passos lentos em minha direção, estava a minha resposta.
-Si-sim. – gaguejei.
