segunda-feira, 2 de abril de 2012

Caras jabuticabas


Nunca esqueci o dia em que cruzei com aquele serzinho. Serzinho este que me fez gelar em pleno sol acreano de meio-dia, que por aqui se exibe mais cedo, e calor de abafar bom humor. Ida pro trabalho, terminal de ônibus lotado e me deparo com aqueles olhinhos. Duas jabuticabas de brilho intenso fugidas do pé a me observar atentamente e me invadir a alma. A me estudar de forma minuciosa - um estudo rigoroso que ia além dos traços do rosto, harmonia da face, disposição entre boca, nariz, olhos ou queixo. Nada parecia escapar. Meus defeitos, qualidades, desejos, medos, angústias, dúvidas e certezas. Estava tudo lá, estampado no reflexo daquele olhar fixo e atento da mocinha em miniatura cujo nome nem sei. São tão completas e inteiras essas pessoinhas que a gente insiste em chamar de pedaço. Pedaços de gente, pedaços da gente... O franzido de sua testa não lhe deixa esconder o estranhamento natural de quem se depara com o desconhecido e faz força pra compreendê-lo. Me senti despida de qualquer máscara, dessas que se usam eventualmente para se esconder de julgamentos alheios. No final, um sorriso. Um sorriso breve e sincero de aprovação como quem dizia "te vejo inteira e gosto". Pôs a mãozinha na boca, deitou a cabeça nos ombros da mãe que lhe beijou a testa e sumiu. Sumiu entre a multidão em polvorosa ao ver o ônibus chegar. Sumiu do breve momento daquele contato único. Por não se repetir. Por ser raro e caro de se lembrar.










segunda-feira, 12 de março de 2012

É da natureza:

Nascem vermelho-paixão, depois as coisas vão ficando pretas...
Serve tanto para amores, quanto para amoras.

terça-feira, 6 de março de 2012

Gramática dramática

Enquanto ela soltava o verbo, eu fazia uma oração. Oração subordinada a ser substantiva, objetiva e direta de meu principal desejo: “que ela me perdoe, que ela me perdoe, que ela me perdoe”... Ela conjugava em alto e bom som o “ir” do amor que em nós um dia se fez tão presente, e a cada pronome se mostrava cada vez mais pretérito apesar de perfeito. “Eu fui pra ti um objeto, enquanto tu... Tu foste meu amor. Ela foi só mais um, entre tantos motivos. Nós fomos o que nunca mais seremos. Vós fostes o culpado... Eles e elas foram testemunhas”. Depois passou a me atirar objetos. Objetos, direto no rosto. Objetos, direto de suas mãos suadas e trêmulas... Foi assim, quando amar tornou-se verbo transitivo em transição. E apesar de precisar, perdeu seu complemento.



Ponto final.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

A cantora

Nunca passara despercebida. Nem quando adolescente, nem quando criança, e agora, muito menos, quando mulher. Era de se admirar. Sorriso cativante, corpo franzino, como de uma criança. Alma de adulta.

Ela gostava de todos. E de muitas coisas, ao mesmo tempo. Tinha talento pra tudo, bom, quase tudo, ninguém tem talento pra tudo. Mas ela conseguia atrair a atenção apenas enquanto caminhava. Seu caminhar, seu andar, seu corpo, suas mãos, tudo parecia estar em perfeita sintonia com o universo.

Mas foi quando ela cantou que mais me impressionou. Digo isso porque, admitindo nossa falha em julgar as pessoas pelo físico, nunca imaginava que aquele corpo pequeno teria uma voz tão cativante. Linda. A sensação que senti foi de pura clareza. Segurei as lágrimas que me vieram aos olhos porque sabia que estava em local público, mas por dentro, ah, por dentro eu chorava de emoção.

Ela, que já atraía pelo caminhar, chamava ainda mais atenção no palco. Quantas pessoas na platéia? Uma? Duas? Cem? Não importa. Ela estava sozinha com seu violão, uma pequena solitária que tinha aos pés quem a ouvisse. E não importava a canção, sempre conseguia cativar de forma incrível.

A cantora me impressionava a cada conversa. Cada dia me mostrava uma de suas facetas, personalidades, conversas sérias e até mesmo libidinosas. Como era linda! Seus olhos, como seus olhos eram expressivos. Eu me apaixonei. Não por ela, não de forma carnal. Espiritualmente falando, ela me atraía a alma.

E foi assim, que a menina-mulher-cantora me cativou. Cada dia com um jeito, uma novidade. Ela nunca é tediosa. Sabe se portar em cada ocasião. E é incrível como hoje, eu penso nela com tanto carinho e respeito. Quero ser como ela. Quero ser ela!



Escrito por Anne Moura (que vai me pagar por essa) do blog
http://pimentando.blogspot.com

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

#Diário de Madalena

Lembro-me que na quarta ou quinta vez, não sei ao certo, prometi que não mais aconteceria. E cá estamos nós, na nonagésima quarta? Parei de contar na vigésima. Pensei nos motivos que me faziam recuar e eles não me eram suficientes. Além disso, eu não seria Madalena se cumprisse minha promessa.

Pra ele, era como se a culpa o vigiasse, mas o retrato dela no criado mudo nunca me incomodou. Cada vez fico melhor em ser o que escolhi ser. Sim, porque não culpo o destino, nem o capeta, nem o fogo da paixão que, dizem, faz você sair de si e cair em tentação. Não conheço de tentação. Conheço de escolhas.

Escolhi vê-lo chegar, pra logo depois sair. Escolhi nunca ter dia certo pra o encontrar, mas saber a hora exata de desaparecer. Escolhi não poder ligar a qualquer hora. Escolhi não cobrar, não possuir.

Cuidar pra não deixar rastros, marcas de unhas, manchas de batom. Não usar com ele o perfume de bom fixador, que ela provavelmente chamaria de “barato”. Essas são formas sutis de dizer “Eu te amo”. Ou, pra ser mais clara, mais Madalena, são formas de dizer: “Quero continuar f*dendo com você, sem f*der a sua vida”. E eu acho que ele entende (e agradece).

segunda-feira, 6 de junho de 2011

No canto

Perdi a conta das vezes em que me escondi nos cantos
No canto das canções que canto
Ou no canto dos contos que invento

Sempre achei que houvesse encanto em cantar o que nunca conto
Pra não descontar no outro o que só é da minha conta

Junto mágoa, saudade, lembrança
medo, desejo, esperança
No canto das canções que canto
No canto dos contos que invento



quinta-feira, 12 de maio de 2011

Dilema

Era primavera quando decidi não mais decidir. Depois de muito caminhar, deitei por sobre a grama, debaixo do ipê que amarelava a paisagem, perto da praça. Sua sombra me acarinhava, vista e pele, ardidas do sol. Pus os óculos escuros de canto e me perguntei, depois de um ou dois suspiros:
- E se eu jogasse uma moeda pro ar?
O vento, manso e fresco, parecia querer opinar. Ele soprava a favor de Jerônimo, assoviando em meus ouvidos algo que me fez lembrar aquela velha canção que tanto embalou meus antigos sonhos proibidos. Antigos, porque mais tarde, Jerônimo e eu fizemos questão de realizá-los todos, quase que de uma só vez.
Mas eram sonhos demais pra uma noite só! Ao pensar nisso, era impossível não me escapar um sorriso pingado de malícia, do canto da boca.
Já os passarinhos... Estes eram do time de Heitor. Primeiro porque ele também era cantador, dos que acham tudo sempre lindo, mesmo em dias de muito chover e muito trovejar. Eles estavam eufóricos, cantando ao redor, como quem dizia: "É ele, Helena! É ele! Não o deixe escapar."
Lembrar de Heitor também me fazia sorrir. Mas era um sorriso diferente, desses que te deixam com cara de bobo, mas que, ainda assim, te iluminam o rosto.
E eu sorria bobamente por alguns segundos, lembrando de Heitor, induzida por sabiás e canários, até vir o vento me assoviando cânticos proibidos, acendendo pensamentos libidinosos e arrepios de desejo.
Pus então as mãos nos ouvidos, a fim de tapá-los, e não mais ouvir a natureza, já que ela não parecia querer ajudar. Levantei subitamente, fui até a praça calçada e tirei a moeda do bolso.
- Cara, Jerônimo; Coroa, Heitor.
Fechei os olhos e joguei-a desastradamente para o ar. Alto demais, longe demais e, ainda assim, esperei ouvir algum som que indicasse que ela havia tocado o chão, mas nada. Abri lentamente os olhos, voltados para baixo. Eu ansiava e ao mesmo tempo sentia receio pela resposta.
Pensei ter perdido a moeda valiosa, incumbida de tamanha missão, quando me dei conta de que logo ali à frente, passos lentos em minha direção, estava a minha resposta.


- Procurando sua moeda? – perguntou o moço de olhar estranhamente familiar, vindo de não-sei-onde, pra nunca mais voltar.



-Si-sim. – gaguejei.




- Aqui está.


- Obrigada! - sorri envergonhada.


- A propósito, me chamo Carlos.


- Me chamo Helena.


E foi assim, sem tirar nem pôr, que entre a cara e a coroa, escolhi o acaso.