quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Do tempo




Há uma fissura humana por ele. Pelo mistério do tempo das coisas. Pela complexidade das coisas do tempo. Ao que não se controla ou se doma. Ao que não para ainda que finde. Ao que dita o início e o fim peço três dádivas divinas: paciência, paciência e paciência.

Peço-te o prazer legítimo 
E o movimento preciso 
Tempo tempo tempo tempo 
Quando o tempo for propício 

Caetano Veloso

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Alice no país das ironias


Me mandaram lembrar de esquecer o script. Mandaram esquecer de lembrar o roteiro.  E, num instante, a principal regra era dormir no ponto e acordar para a vírgula. Então continuei. Caminhei e foi possível ver sorrisos num bosque escuro. Lá, um passarinho me contou que amava a liberdade, e se prendeu a mim por livre e espontânea vontade. Me disse que ninguém segura o tempo quando passa e muda a direção do vento. Não há velas atadas que salvaguardem o destino certo. É curto o espaço entre o nunca e o agora. Entre o sempre e o fim e entre planos e promessas existe o acaso, o desvio, a surpresa. E aí, vejam só, nasceram pitangas em pleno inverno. Pitangas que crescem no meio da chuva. Encharcadas. Submersas... Agora a vida é isso: ouvir gargalhadas no silêncio.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Já sinto o mar me chamar...

 
 

O vejo acenar em cada tom de azul a pintar o mundo. Já o ouço chamar no barulho das águas que me beijam os pés e me inundam a alma. Sinto em forma de brisa leve, ondas baixas e breves que me arrastam em sonhos. Eu já sinto o gosto do mar que escorre de mim pelos olhos e se encaminha até a boca. Já sinto o mar me chamar pra dizer que é meu, uma parte. Que sou dele uma gota. Sou dele e do mundo.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Férias de nós

Nada nesse mundo me dá tanto trabalho quanto controlar borboletas destrambelhadas no estômago. Especialmente as nascidas por tua causa, com esse quê de mutantes, sanguessugas, chupa-cabras. Desse modo, só por isso, pelo cansaço de ter de andar na contramão para te acompanhar, correndo riscos demasiados, resolvi tirar férias tranquilas de nós. Devo confessar que também é árduo o trabalho de me conter para não te fazer provar do próprio destempero. Para não me igualar a ti, como se eu pudesse tirar férias de mim, resolvi tirar férias de nós. Mas, tão fatalmente obvio, aonde eu vou, estou. Aonde eu vou, estamos. E, em se tratando de saudade, quando os olhos não veem é que o coração sente. Agora preciso te dizer que não há borboleta no estômago, mutante ou sanguessuga, que resista a azia causada por tua constante acidez. Eu sei, parece mais acertado chutar o balde antes que ele fique cheio demais. Passamos da conta, tudo bem. Quando você passou a dizer "Madalena, quando o stresse é maior que o prazer, não vale a pena" eu percebi que sempre fomos, um para o outro, como aquele sapato lindo que no pé nunca coube, e mesmo fazendo tanto calo a gente resiste em desapegar. Então decidi, pra desanuviar as ideias, que pelo trabalho exacerbado de se manter vivo o que nunca nasceu, precisamos de férias eternas. Férias das brigas. Das reconciliações. Do que somos. Das lamentações pelo que não somos. Das borboletas mutantes. De nós.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

"Primo, sabe da última?"

"Quem pode mais do que Deus?", dizia o vô Said debochando da minha juba, quando me via acordar pela manhã. "Vem aqui, ô, Maria Betânia, vamos tomar café". Eu odiava. Chorava, esperneava... Afinal, eu era uma criança sofrendo bullying pelo avô. E hoje me vejo aqui, com o cabelo estirado da progressiva e sem o meu chato predileto. Sempre achei a expressão "aniversário de morte" escrota. Mas faz um ano que ele se foi. Apesar de sentir que entre nós faltou convivência, sei que me sobram lembranças dignas de nota, porque ele era daquele tipo de gente que não passa despercebido. "Primo, sabe da última?", e danava a contar a piada nova. Eu lembro da última, na mesa do almoço, comendo um cozidão... Sinceramente, não vi a menor graça no enredo, mas o piadista era bom. Eu lembro muito bem dele espremendo o limão e rindo sozinho, repetindo o final. "Manja, Alzira", e ria, ria... Às vezes eu acordo e me vem o velho bordão na cabeça. Agora, sem choros de raiva, só de saudade, posso responder: quem pode mais do que Deus? Ninguém, vô. Ele decidiu, há um ano, que estava na hora de findar com as piadas. Decidiu que era chegada a hora do teu descanso. Mas tem um pedacinho de ti em cada filho e neto presepeiro e feladaputa (aquele velho apelido carinhoso) que você deixou, visse? 

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Confissão

No reino das verdadeiras mentiras
Onde o amor é contrato
Compromisso firmado em altar
Simbólicos círculos de ouro algemam os dedos
Enquanto correntes de latão enferrujam na alma
Um velho papel pra assinar

Mãe, eu não quero me casar.